Folhapress

 

Ouvir música no trabalho tem impacto positivo na produtividade, de acordo com 78% dos entrevistados de um levantamento da Cloud Cover Music, empresa americana de streaming.

Se o efeito benéfico é quase consenso entre os trabalhadores ouvidos e neurocientistas, a questão de quais tipos de música ajudam ou atrapalham não tem resposta única. Mas, afinal, há um estilo ideal para ouvir no trabalho?

 

Um reforço à atenção

Especialistas afirmam que a música instrumental – dos mais variados tipos, do jazz ao chorinho, passando pela clássica – é uma boa candidata.

De acordo com Luciano Melo, médico neurologista, pesquisas indicam que “as trilhas instrumentais, especialmente as mais calmas, tendem a reforçar a atenção das pessoas”. “Já faixas com vocal tendem a aumentar a introspecção e podem ser distrativas”, diz.

Isso acontece por causa do conteúdo verbal. “Há uma competição pela atenção”, afirma Patrícia Vanzella, coordenadora do projeto Neurociência e Música na UFABC (Universidade Federal do ABC).

 

Outros estilos

Mas, quando o foco é ganho de produtividade, há características a evitar mesmo na música instrumental. Muitas flutuações de intensidade, por exemplo, também podem distrair. O mesmo vale para ritmos agitados, que estimulam a parte motora, da dança.

Assistente de estratégia e insights da agência F.biz, o publicitário Kelvin Alves, 23, segue mais ou menos essa cartilha. Quando está a caminho do trabalho, na zona oeste de São Paulo, escuta rap ou R&B, gêneros centrados em vocais.

No escritório, a trilha passa a ser o lofi hip-hop (subgênero instrumental, marcado por batidas desaceleradas e alguma influência de jazz).

Isso quando Kelvin analisa relatórios ou planilhas – o departamento dele junta o estudo do consumidor com a ciência dos dados. “Esse estilo me deixa mais tranquilo para entender o que estou lendo. Já tentei trabalhar ouvindo outros gêneros, mas, às vezes, muitas vozes acabam me desconcentrando”, afirma.

Quando o publicitário produz relatórios, a playlist muda mais uma vez. “Coloco para tocar um rap mais vocal, que me dá um pouco mais de ritmo, de adrenalina.”

A estratégia adotada por Kelvin pode, muito provavelmente, não funcionar para outras pessoas, de acordo com os especialistas ouvidos pela reportagem. Por isso mesmo, a música instrumental é só “candidata” a ajudar no ganho de produtividade.

 

Para cada identidade

A falibilidade de uma ou outra receita poderia ser justificada, de maneira simples, pelas particularidades do gosto individual – traços de personalidade, idade e natureza da tarefa também precisam ser levados em conta.

Em musicoterapia, há o conceito de identidade sonora individual. “Todos nós, assim como temos uma história clínica, temos uma história sonora”, explica Juliana Duarte Carvalho, musicista, psicóloga clínica e musicoterapeuta do Hospital Sírio-Libanês.

Essa bagagem contém, entre outros, fatores culturais e “vai se formando ao longo da vida, nunca se completa”.

Levando em conta esse último aspecto e o fato de que, hoje, as pessoas são expostas ao hit do momento em diversos lugares e meios, Juliana diz que é saudável procurar conhecer músicas novas, que podem ser eficientes no ambiente de trabalho, mas não só.

“Assim como um bom livro, elas podem te influenciar e promover mudanças”, diz a musicista.

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