O ano de 2019 chegou para os brasileiros levantando reflexões a respeito do “quanto vale uma vida humana”. Na tragédia de Brumadinho, documentos comprovam que a Vale sabia das chances de rompimento da barragem; no incêndio que matou 10 jovens no Centro de Treinamento do Flamengo, laudos apontam que o local era projetado para ser um estacionamento; nas mortes decorrentes das chuvas no Rio de Janeiro foi revelada a falta de investimento no controle das enchentes e quanto à morte do jornalista Ricardo Boechat, o helicóptero não tinha autorização para tal atividade e apresentava defeitos.

Acontecimentos distintos, mas que trazem um único questionamento: será que os responsáveis não tinham a ciência de que suas práticas eram criminosas e irregulares, e poderiam vitimar pessoas?

Os brasileiros sabem que a resposta para todas essas tragédias tem como base a busca desenfreada pelo dinheiro, pelo lucro, pelo ter mais e investir menos, e pelo fato de a vida do outro não ter relevância.

 

Ganância e individualidade

Na busca desenfreada pelo dinheiro, o ser humano deixou de lado a importância das relações e alterou a pirâmide de prioridades da vida. Segundo a psicóloga Claudineia Sartori, o capitalismo passou a controlar o homem e fez com que ele perdesse sua identidade.

“O homem passou a se preocupar em ter bens materiais e vantagens lucrativas sem qualquer cuidado com o outro. O sistema capitalista representa o descaso de um ser humano pela vida do próximo”, comenta.

Claudineia ressalta também que muitas pessoas encontram-se presas em um universo pessoal e não conseguem desenvolver a empatia.

“Há uma ignorância afetiva que impede de se solidarizar com o sofrimento do outro. Algumas pessoas não se importam com a dor alheia porque se tornaram insensíveis, acostumaram com as desgraças e esta se tornou banal”, diz a psicóloga ao comentar sobre o descaso dos responsáveis pelas recentes tragédias no país.

 

O desrespeito nu e cru

A desvalorização do ser humano é visível também nas redes sociais. Vídeos das vítimas são exibidos sem nenhum respeito aos familiares e comentários mostram o quanto a dor do outro não tem a mínima importância – por exemplo, cidadãos que defendem determinados partidos políticos comemoraram a tragédia de Brumadinho, uma vez que o presidente da República, Jair Bolsonaro, teve uma votação expressiva na região.

Para Claudineia, esse tipo de comportamento ocorre porque o homem está sendo estimulado a viver de maneira solitária, onde as relações não são estimuladas.

“As comunicações estão acontecendo mais apressadas e de maneira impessoal. Não há estímulos para o contato, e isso gera a falta de habilidade para demonstrar afeto, compreender e solidarizar-se com o outro. É também uma autodefesa exagerada frente ao medo de não saber expressar sentimentos de compaixão e solidariedade”, comenta a psicóloga.

 

Distribua amor

Caso o ser humano se acostume com a frieza das relações, com a força do capitalismo aniquilando vítimas, com o desrespeito e a falta de empatia, a vida entrará em um ciclo vicioso de desvalorização que vai atingir as futuras gerações.

Para a psicóloga, o homem tem inteligência suficiente para mudar essa relação capitalismo versus respeito ao outro, e propiciar um mundo aonde a valorização pela vida do próximo seja uma de suas prioridades.

“É preciso repensar sobre o modo de vida e principalmente como tratamos uns aos outros, expandindo a consciência coletiva. O homem consegue esta transformação através do exercício da gentileza, que é uma forma de dar atenção, ter cuidado com o outro e isto torna os relacionamentos mais humanos, com menos rispidez. Quem a pratica não tem má vontade, não é indiferente e, sim, cuidadosa e amável”, fala Claudineia.

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