O pré-carnaval, no último final de semana, atraiu mais de 3,95 milhões de foliões em São Paulo durante o desfile de 187 blocos de rua. Na região metropolitana não foi diferente, pois várias cidades receberam um bom público durante a folia. Nos próximos dias, quando a festa é oficializada, de fato, a tendência é que esse número seja até maior, tendo em vista os visitantes que chegam à capital para curtir o segundo maior Carnaval de rua do Brasil.

Essa procura pelos blocos é um resgate da sociedade de uma festa que começou no início do século XX com uma simples brincadeira de pessoas que se vestiam de índios e brincavam com instrumentos musicais, e um reflexo da situação econômica do país.

 

Há muitos anos

O Carnaval de rua, com a participação dos blocos, vai se constituir no século XX, segundo o professor e pesquisador da cultura popular brasileira, Bruno Baronetti.

“Nessa época tínhamos três tipos de Carnaval, o de caráter burguês – que acontecia na região da Avenida Paulista -, o operário – com as festas nos clubes e nos espaços públicos – e o Carnaval Negro que se caracterizava pelos cordões carnavalescos que saiam nos bairros periféricos, mas que aos poucos foram chegando às ruas da capital”, explica.

No entanto, quando ocorre a oficialização do Carnaval por parte da prefeitura – alguns espaços começam a ser construídos para que a população fique concentrada apenas em determinados pontos -, a festa de rua começa a perder espaço e as escolas de samba ganham destaque.

“Quando o Carnaval passa para o Sambódromo, São Paulo perde um pouco desse espírito Carnavalesco de rua e as pessoas começam a sair da cidade em busca da festa no interior ou em outras cidades. Porém, ainda tinha o Carnaval de rua, mas em uma forma bem mais próxima de um desfile de escola de samba”, detalha Baronetti.

 

Resgate do passado

Os famosos carnavais de Salvador e Rio de Janeiro já não são os únicos atrativos do Carnaval devido aos altos custos e o excesso de foliões. Dessa forma, muitas pessoas começaram a perceber que é possível fazer a festa nas ruas das cidades e, a partir de então, surgem novos blocos e os antigos reaparecem.

“Em 2010 a classe média participa mais ativamente dos carnavais de rua e com o aumento do número de foliões, as administrações públicas começaram a dar apoio e infraestrutura para que a festa ocorresse da melhor maneira. A partir de então, as pessoas começam a ter interesse pela folia que já se espalha por todas as regiões no entorno da capital”, fala o pesquisador.

 

Disseminando a folia

Na região metropolitana de São Paulo, o Carnaval de rua também se destaca, como explica o representante do Bloco dos Piratas em Osasco, Celso Juno.

“A sociedade está degradada com tantos problemas, que está procurando os blocos de rua como uma maneira de se divertir. São famílias, pessoas idosas e crianças que brincam ao som de músicas que não falam de discriminação, de ridicularizam à mulher e violência. Começamos com 30 pessoas e hoje já são mais de 3 mil pessoas que nos acompanham”, diz Celso Juno.

No Alto Tietê e Grande ABC, as cidades também mostram a tradição no Carnaval de rua. No último final de semana, várias pessoas ganharam as ruas dos municípios e mostraram que é possível se divertir bem perto de casa.

 

O legado da folia

O Carnaval não é apenas alguns dias de folia, é um momento que traz um pouco de aprendizado, como explica Bruno Baronetti.

“O Carnaval é o único momento democrático que se vê no Brasil. Todos podem se divertir na festa popular. O país já tem tantas desigualdades e nessa folia tem uma diminuição desses fatores de discriminação e desrespeito”, comenta.

Leia também