Mirian Goldenberg

 

Tenho entrevistado homens e mulheres com mais de 60 anos. Eles casaram, tiveram filhos e até netos. Montaram suas casas, compraram seus carros, superaram crises pessoais, familiares e profissionais. Mas será que se tornaram pessoas mais sábias e maduras com o passar do tempo?

Observo que muitos continuam sofrendo pelos mesmos motivos pelos quais sofriam na infância. Ainda hoje choram porque tiveram um pai violento, crítico ou ausente. Também sofrem porque não foram suficientemente reconhecidos, elogiados e amados pela mãe.

Uma professora de 63 anos contou: “Apanhei muito do meu pai e, até ele morrer, nunca recebi um só gesto de carinho, uma palavra de amor, um presente especial. Sofro muito ao ver a relação do meu marido com a filha do primeiro casamento dele. Ele é um pai muito amoroso, o pai que eu sempre quis ter e nunca tive”.

Muitos experimentam uma espécie de miséria subjetiva, mesmo que sejam ricos e poderosos, como um advogado de 65 anos: “Fiz mais de 20 anos de análise e não consegui superar meus traumas de infância. Continuo o mesmo garoto assustado e frágil, que se sente um fracassado. Apesar de ser muito bem-sucedido profissionalmente, eu acho que meus colegas vão descobrir que sou uma fraude e me destruir completamente”.

Ao ouvir tantas histórias tristes, percebi que é importante aprender a cuidar com amor, atenção e carinho da criança que um dia fomos e que, de certa forma, continuaremos a ser até o fim de nossas vidas.

 

Mirian Goldenberg é antropóloga

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