Leonardo Torres

 

Todos têm um grau de acumulador. Essa patologia, quando radical, é muito importante e deve sempre ser acompanhada de tratamentos. Mas os Ocidentais são, seja em maior ou menor grau, um pouco acumuladores.

A forma de pensar, viver e agir no mundo vem dos povos do deserto, povos que lidavam com constante escassez. Imagine-se em um deserto todos os dias do ano, durante vários anos, buscando água, morrendo de fome, passando pelo frio da noite e pelo calor intenso do dia. Os povos do deserto, guerreiros, conviviam com uma gigante necessidade.

Mesmo depois do deserto, o Ocidente viveu duas grandes Guerras, que também colocaram o homem em condições de escassez e de extrema necessidade. O Ocidente viu sua sociedade retornar ao deserto, só que desta vez, um deserto de escombros, destruição e falta de suprimentos. Não é à toa que as pessoas mais antigas têm uma tendência maior em estocar comida.

Atualmente, o próprio Capitalismo utiliza esse sentimento de escassez e de necessidade que foi gerado há séculos. Esse sentimento impulsiona a cada vez mais acumular. E não importa se é dinheiro, roupas, crushes, fotos, drogas, curtidas nas redes sociais, etc.. Em um sentido mais amplo, a humanidade inteira faz isso com o planeta Terra, usurpando todos seus recursos.

Na verdade, é preciso acumular para tentar tapar o buraco que se sente na alma. Esse buraco é tanto uma herança milenar dos povos do deserto, quanto os complexos e frustrações do cotidiano e de história de vida.

Há esperança? Muitas pessoas estão tentando fazer o caminho inverso, buscando uma maneira de viver mais simples. Os depoimentos apontam que esta nova forma de viver é libertadora.

A liberdade que se experimenta ao tomar essa atitude de vida é porque, no fundo, não as pessoas que têm coisas, são as coisas que as têm.

Esse caminho, o da simplicidade, pode ainda auxiliar na preservação do planeta. Se não formos mais conscientes ao utilizar os recursos naturais, no fim transformaremos tudo em um grande deserto.

 

Leonardo Torres é professor e doutorando de Comunicação e Cultura

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