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Bruno Favoretto e Daniel Santos
O Brasil tem menos pobres, segundo o levantamento do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) divulgado na semana passada. A pesquisa estima que três milhões de brasileiros saíram da situação de pobreza entre 2002 e o primeiro semestre de 2008. Pensando na atual situação econômica dos brasileiros, o Jornal do Trem & Folha do Ônibus investigou o efeito dessa boa notícia na vida dos usuários de trem da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos). Todo tempo é pouco
São Paulo ocupa a 6ª posição na lista das cidades que têm o trânsito mais turbulento, segundo pesquisa realizada pelo Datafolha em 2004. Mas não é só o trânsito de São Paulo que é agitado. A vida dos usuários dos serviços de trem compete com o movimento das ruas e avenidas paulistas, pois, além de trabalhar, também freqüentam universidades. Portanto, todo tempo é pouco. Esse é o caso de Felipe Mourão, estudante e estagiário de Sistema da Informação, que mora na Vila Leopoldina, e trabalha no Morumbi, zona Sul de São Paulo. Ele diz que o trem “é a melhor forma para fugir do trânsito de São Paulo”. O estudante de administração de empresas e funcionário de um banco, Alexandre Shinohara, também faz o trajeto de trem, do bairro Jaguaré até o Morumbi, onde trabalha. “Além do percurso rápido, o tempo de espera é bem reduzido”, analisa Alexandre. Carro na garagem
Além de economizar tempo, os usuários dos trens optam por esse meio de transporte para economizar seus rendimentos e por isso, deixam os carros na garagem. Esse é o caso da frentista Neide de Oliveira Coelho, que trabalha no Morumbi e mora em Osasco. “Não compensa financeiramente fazer todo o meu trajeto de carro”. E se para a maioria das pessoas andar de carro é mais confortável, para José Milton Santana essa comodidade só vale a pena ser desfrutada aos finais de semana. “Carro é só para ir ao supermercado e para o passeio com a família aos domingos”, falou o trabalhador da construção civil. Tecnologia nas viagens
Antigamente, para amenizar o cansaço da viagem, alguns passageiros faziam seus trajetos lendo um livro. Mas hoje em dia, as obras ganharam concorrentes: os aparelhos de MP3 e outros mais modernos. “Faz pouco tempo que comprei meu MP5. Dá pra chegar mais disposto na faculdade”, disse Márcio Valle, assistente administrativo, que utiliza o meio de transporte ferroviário há 12 anos. Em alguns vagões, principalmente os dos trens da linha sul, é possível encontrar passageiros carregando até aparelhos de DVD Player. “Na correria do dia-a-dia, quase não tenho tempo de ver filme, então decidi comprar esse portátil. Mesmo tendo que interromper a exibição do filme, eu me divirto”, conta Simone Castro, secretária. Simone ainda completa dizendo que possui um carro, mas que só utiliza para trabalho uma vez por mês, quando participa de eventos da agência de publicidade onde trabalha. “Economizo o dinheiro da gasolina para viajar nas férias”, informou. Mesa farta e preocupação profissional
Esse crescimento econômico não serviu apenas para o cidadão ter o direito de consumir os produtos de preço mais elevado, mas também para estimular outros fatores presentes na sociedade de forma geral, como a educação, por exemplo. Em todas as regiões em que foi feito o levantamento, ficou claro que a população se preocupa cada vez mais com o futuro profissional. Esse é o caso de Fábio Ribeiro, 23 anos, que mora em São Caetano e trabalha na Mooca como auxiliar técnico em CLP (um tipo de sistema de dados amparado por equipamentos eletrônicos), que exige a devida formação profissional técnica. “Meu pai trabalhou duro para que eu pudesse, além de estudar no ensino colegial, concluir cursos de eletrônica digital”, diz Fábio. Exemplos como esse demonstram que a mudança não é relativa a uma mesa mais farta, com uma quantidade de alimentos mais caros ou melhores. Significa também que esse dinheiro está sendo utilizado para aprimorar a instrução das pessoas - que antes eram classificadas como de baixa renda - estimulando o aprendizado, contribuindo para a formação pessoal e profissional dos “novos” cidadãos, engajados na luta por uma sociedade mais justa e que sempre busca a evolução. A melhoria de vida das pessoas que utilizam os trens também foi observada por Neide de Oliveira, que classificou os usuários como de ‘classe média’. “Digo isso também porque minha filha tem uma amiga que nunca entrou em um trem, pois a família dela é muito pobre, a ponto de não ter o dinheiro da passagem”. Trem e diversidade social
Até o início dos anos 90, fazer uma viagem de trem era só mesmo por necessidade. Além de sucateado, o transporte oferecia uma rotina de riscos aos seus usuários, como observa o advogado Roberto Firmino. “Antigamente, dava medo entrar em um trem. Ainda bem que as melhorias estão acontecendo. Hoje eles abrigam todas as classes sociais com muita tranqüilidade, e isso explica porquê a classe em ascensão utiliza esse meio de transporte”, disse. As melhorias nos trens começaram a acontecer em 1995, três anos depois da criação da CPTM. A partir desse ano, o governo paulista investiu US$ 1,5 bilhão para mudar a realidade do transporte público, que conquistou a “simpatia” da população. “O trem está parecendo metrô. As viagens ficaram mais confortáveis. Claro que nos horários de pico, a realidade de uma cidade grande se reflete nos meios de transporte, principalmente nos trens”, disse Ângela Silva, enfermeira e moradora de Barueri. Segundo dados da CPTM, a frota atual conta com 110 trens em operação. A companhia também informou que nas linhas 8, 9 e 10, onde circula o Jornal do Trem & Folha do Ônibus, 717 mil pessoas circulam por dia. ![]() |
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